Em 2018, ou 2019 aqui no Brasil, fomos apresentados a Miles Morales e outras 5 versões de homens-aranha em aranha-verso, o filme animado foi surpreendente, conquistou um Oscar e garantiu a promessa para uma sequência, dessa vez com a possível participação de “supaidaman“, a versão Tokusatsu do homem-aranha no Japão de 1978/1979. Mas e se contassem para você, meu caro leitor, que o herói vestido de aranha que pilota um robô gigante contra o exército da cruz de ferro, não foi a primeira tentativa de levar Peter Parker para o Japão? Pois é, então como diria a saudosa TV Rá-Tim-Bum: “senta que lá vem história”.

(Imagens retiradas do site Aficionados)
Mas para entrarmos nessa história de cabeça, precisamos voltar um pouco no tempo, para 1970, quando a Marvel comics, 7 anos após a criação do herói por Steve Ditko, Stan Lee e Jacky Kirby, decidiu expandir o seu alcance para o mercado japonês, mas não era tão simples só reimprimir as revistinhas coloridas traduzidas no país, o herói precisava cair nas graças do público, e nada melhor do que adotar o estilo único do Japão para sua nova investida nas vendas: o mangá!
Assim como estamos acostumados a ver filmes orientais e asiáticos serem adaptados para o mercado americano, como o que fizeram com Old Boy por exemplo, o mesmo aconteceu no início da década de 70 no Japão, só que com quadrinhos. A colaboração da Marvel com a Kodansha trouxe o amigo da vizinhança para o mundo dos mangás, tendo sua estreia na revista Shōnen Sunday Extra, mas antes disso era preciso encontrar um autor para guiar essa carruagem e foi então que a Marvel encontrou Ryoichi Ikegami!
Pausa! Ikegami é uma peça fundamental para entendermos como o personagem se tornou o que é hoje e como conquistou o seu espaço no Japão, portanto, uma pequena biografia corrida sobre esse mestre:
Ryoichi Ikegami é um mangaká japonês que começou sua carreira ainda jovem, por volta dos seus 17 anos, e foi um dos grandes motivadores de estabelecer o gênero de mangá traduzido para o inglês nos Estados Unidos, especialmente com a colaboração de Kazuya Kudo com a publicação pela Viz comics de Mai, the Psychic Girl 1987/1989, trazido para o Brasil pela editora Abril com o título de Mai, A Garota Sensitiva em 1992, com as páginas espelhadas, é claro.
Ele foi bastante influenciado pelos seus mangakás contemporâneos do meio underground japonês Tsuge Yoshiharu, Mizuki Shigeru, Kariya Tetsuo e Buronson, que traziam para suas obras personagens sombrios, anti-heróis que se colocavam contra figuras de autoridade e tinham convicções fortíssimas que inspiraram toda uma geração no Japão. Suas obras geralmente colocam em perspectiva problemas reais e contradições da sociedade. Esses autores tinham uma paixão pelo realismo em suas histórias e desenhos, que criticavam e expunham as injustiças e aspectos sombrios da comunidade japonesa, influenciados pelos gekigas, que eram os quadrinhos de época, recheado de samurais e violência.
Ikegami também tinha uma paixão pelo cinema americano e estudou bastante os quadrinhos de Neil Adams. Absorvendo todo esse material, ele trabalhava como assistente (inclusive ajudando Rumiko Takahashi, autora de Ranma ½), colaborador e ainda sim um autor com títulos próprios sendo publicados.
Um fator comum nas artes de Ikegami é o comprometimento, ou vício, em ilustrar heróis/heroínas extremamente belos, com uma atmosfera erótica em seus layouts e enquadramento.

Suas obras possuem um caráter maduro, o que já foi responsável por alguns problemas de publicação no Japão e Estados Unidos. Homem-Aranha mangá não foi diferente, através da ajuda na tradução do material original, Kōsei Ono, junto de Ikegami, se preocupavam muito em adaptar as histórias do personagem o mais fiéis possíveis dentro da cultura japonesa, mas só obtiveram sucesso quando Ikegami teve liberdade total para adaptar o herói para o cenário japonês, com a colaboração de Kazumasa Hirai, uma dupla que vai se provar perigosa…
Ikegami acredita ter sido contratado pela Shonen Sunday Extra para trabalhar na adaptação do Homem-Aranha, graças ao seu estilo mais realista que se destacava dos outros mangás da época. Esse é um fator importante, a Marvel conhecia a arte de Ikegami, não o seu roteiro…
Atualmente, no ano deste post, Ryoichi Ikegami possuí 74 anos, e se dedica exclusivamente nos trabalhalhos em colaboração com outros artistas, assim como em todos os seus projetos anterioress tem participação ativa nas decisões de roteiro das obras, e não possuí nenhuma intenção de parar tão cedo com sua carreira.
Bem, acho que fomos bem apresentados a Ryoichi Ikegami, vamos voltar para nossa programação normal.
Yu Komori toma o lugar de Peter Parker nessa versão. Ao invés de Mary Jane ou Gwen Stacy temos Rumi, o par romântico definitivo do personagem, e sendo bem direto com você caro leitor, estes são de fato os únicos personagens principais recorrentes do mangá. Também temos versões de alguns outros personagens do universo do Aranha como a tia May, que no Japão se transformou em Tia Mei (pois é… mas ela aparece poucas vezes), adaptações de melhores amigos e coadjuvantes como J.J Jameson, e vilões do personagem original, porém a história toma caminhos inesperados, mas vamos com calma…
As histórias de Homem-Aranha mangá começam com a tentativa de Ryoichi Ikegami simular os aspectos e adaptar as narrativas dos quadrinhos originais da década de 60 do herói, com diálogos redundantes e expositivos, nos quais os personagens dizem exatamente o que estão fazendo ou pensando, mesmo que os desenhos sejam capazes de transmitir as mensagens sozinhos.
No início das tramas do quadrinho, a versão japonesa caminha em paralelo com as histórias americanas, com uma pegada juvenil na qual o personagem reflete inúmeras vezes sobre seus poderes e suas consequências, mas mesmo nessas histórias intermediárias, já existe muito derramamento desenfreado de sangue, os vilões morrem com o intuito de criar algum peso dramático e moral sobre o herói, mas o doutor lagarto ser devorado por um bando de crocodilos é um pouco demais, não acha?
A versão do vilão Electro no mangá serve como uma alternativa ao Tio Ben, que não existe nessa versão. O irmão de Rumi, nessa história Electro, após ter provocado um acidente de carro contra uma criança (o que mais tarde soará poético, ou trágico), começa uma jornada desesperada de crimes para conseguir dinheiro para pagar as suas dívidas, a relação da identidade do vilão junto de sua morte causada pelas mãos do Aranha servem como marco para Yu Komori refletir sobre seus poderes e as consequências de usá-los.
Mysterio também aparece na adaptação e faz o que faz de melhor, assim como no enredo do filme atual de Tom Holland e os quadrinhos de Stan Lee, o vilão tenta se passar por herói enquanto busca incansavelmente manchar a reputação do Homem-Aranha.
Chegamos no momento derradeiro, onde encaramos o abismo. Havíamos caminhado por uma trama calma com suas pitadas de momentos mórbidos, mas ainda sim calma, agora entramos em uma porta onde temos de imediato um novo gênero que ofusca toda adaptação do herói americano. Homem-Aranha mangá abraça o gênero “Yanke“, aquelas típicas histórias sobre delinquentes juvenis no Japão, na qual Komori passa a agir de maneira arrogante, levando o enredo para lugares inesperados, como histórias sobre linchamento, viagens alucinógenas, pesadelos sinistros, uma falsa acusação de estupro, sequestro que rapidamente evolui para homicídio e terrorismo (mas que no final era uma crítica à guerra do Vietnã) e uma viagem para a melancolia e cenas depressivas.

(Imagens retiradas de scans do mangá original)
O personagem passa um bom período sem usar o manto de herói, focando no desenvolvimento da psique do protagonista, que começa a ter sonhos perturbadores sobre, mais uma vez, estupro, e, para o nosso alívio, auto condenação. Yu Komori passa a questionar se ele é uma pessoa boa ou não por ter pensamentos horríveis sobre mulheres, especialmente sobre Rumi.

(Imagens retiradas de scans do mangá original)
Por que choraste, Shinji Ikari?
Depois somos arremessados em um delírio coletivo de abuso de drogas, dessa vez não por Harry Osborn, ou duende verde, mas do próprio Homem-Aranha, que se afoga nesse mundo após ser colocado de escanteio por Rumi, que até então era uma dançarina noturna num bar questionável (se é que você me entende) e aparentemente tinha seguido em frente com sua vida amorosa com um de seus clientes, mas que no futuro provaria ser apenas uma mentira pois a garota não aguentava ser a suposta responsável por tornar a vida de Komori mais difícil.

(Imagens retiradas de scans do mangá original)
É em 1973 que Gwen Stacy, a namoradinha favorita de muitos fãs do personagem, morre em um acidente que pode jogar ou não o peso da culpa sobre os ombros de Peter Parker, com intermédio de um vilão com objetivos de ferir o herói. Rumi também tem seu fim trágico, só que em um acidente de carro (veja só você!), porém a culpa é do acaso e o intermédio é um vilão que queria, de maneira aleatória, ter o prazer de saborear o poder da decisão sobre a vida ou a morte de alguém que ele sequer conhece. A trama abraça a melancolia de vez e a depressão no enredo, ela continuaria mas não demoraria muito para não continuar mais.
(Um detalhe importante para não esquecer é que, homem-aranha mangá, já foi publicado no Brasil pela editora Mythos em 1998)
Uma coisa importante a se levantar sobre a adaptação do herói feita por Ikegami, em colaboração com Kazumasa Hirai e Kōsei Ono, escritores de novela, mangá e críticos de filmes na época, foi o impacto que o quadrinho causou no Japão e nos Estados Unidos. A linguagem adulta, violenta e sombria empregada ao Homem-Aranha foi muito a frente de seu tempo a ponto de ser descontinuada, afinal foi apenas nos futuros anos 90, com a “invasão britânica” no mundo dos quadrinhos estadunidenses, como chamavam a alta contratação de autores europeus na produção das editoras americanas, que esse tipo particular de narrativa dada aos super-heróis iria ganhar o devido destaque e atenção nas mãos de autores como Neil Gaiman com Sandman, Alan Moore com Watchmen e Grant Morrison com Homem Animal. Mas Ryoichi Ikegami e seus colaboradores foram, sem dúvida, precursores desse estilo de narrativa no gênero de super-herói, inclusive na América.
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Por fim, sabemos o quanto Stan Lee gostava de títulos grandiosos e megalomaníacos. E se pudéssemos escolher alguns que se encaixariam perfeitamente no Homem-Aranha Japonês? Que tal o Espantoso? Aterrador? Mórbido? Ou surpreendentemente depressivo Homem-Aranha? Enfim, seja no Japão ou em qualquer lugar, o Cabeça de Teia sempre acaba surpreendendo. A história, por mais sombria que seja, é muito boa e traz o subgênero do mangá underground japonês à tona, e uma reimpressão nos dias de hoje seria bem-vinda!
Referências:
Artigo sobre Homem-Aranha mangá.
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Entrevista da The Animerica. – Ryoichi ikegami.
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Ryoichi Ikegami documentário, apresentado por Naoki Urasawa, sobre o seu processo artístico.
Revisão: Karin Cavalcante
O sombrio Homem-Aranha mangá, de Ryoichi Ikegami! publicado primeiro em https://www.genkidama.com.br
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