Considerando a popularidade alcançada pela obra, talvez seja redundante apresentar Demon Slayer a alguém com o mínimo de interesse em animações japonesas e que porventura esteja lendo este texto, mas dado que essa é uma maneira eficiente de introduzir o assunto [citation needed], sucumbirei ao vício.
Criado por Koyoharu Gotōge, Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba (ou só Kimetsu no Yaiba no Japão) é serializado desde 2016 na revista Weekly Shōnen Jump e teve, em 2019, uma adaptação para anime produzida pelo estúdio Ufotable (Fate, Kara no Kyōkai, Tales of, etc.). Como o nome sugere, acompanhamos a jornada de um jovem caçador de demônios que teve os parentes assassinados por um Oni¹, e da sobrevivente irmã, transformada numa dessas criaturas, a quem ele deseja tornar humana novamente. O vínculo entre esses dois, Tanjiro e Nezuko, rege a principal temática da série: família.
Não beba uma dose a cada menção dessa palavra. Nem de água.
“Humano” e “Família”

Tradicionalmente, a estrutura familiar japonesa (Ie – 家) prioriza a manutenção da família como instituição e linhagem pelas presentes e futuras gerações. Isso, além de outras várias coisas, implica na nomeação de uma pessoa como chefe de família e, a partir da Era Meiji (1868 – 1912), até o fim da Segunda Guerra Mundial, essa “pessoa” sempre seria o filho primogênito. Demon Slayer se passa durante a Era Taisho (1912 – 1926), então a norma ainda estava fresca e pronta para ser comida.
“Tá, mas e daí?” — Bom, extrapolando um pouco a relação entre os fatos históricos e a história da série, pode-se dizer que foi o que aconteceu com o Tanjiro: uma passagem de bastão, embora repentina, como sucessor da família.
A hereditariedade, não apenas de informações genéticas, mas de ensinamentos e valores, é enfatizada de diversas maneiras em Demon Slayer; tanto nas coisas mais palpáveis (como técnicas de respiração e espada providas pelas famílias e/ou pelos mestres), quanto nos princípios e comportamentos. E aí preciso de exemplos que justifiquem essa ladainha, então olhemos para o Zenitsu: um cara pessimista, dito “sem expectativas”, mas em quem a convivência com o mestre (que nunca desistiu dele) gerou um senso de dívida grande, por isso sempre tenta corresponder à confiança que alguém deposita nele. Tem também o caso do Inosuke, que age bestialmente por ter sido criado ao lado de javalis (ele, inclusive, veste a cabeça da mãe javali como máscara tal qual um Cubone), exibindo pouca concepção do que é “interação humana” até conhecer a camaradagem de Tanjiro e dos outros, e só então passa a aceitar melhor a afeição e depender mais do próximo. As duas últimas palavras destacadas são importantes para a concepção que a obra tem de “família”, por isso eu as destaquei. O céu é azul.
Aliás, a menção de “mestres” e “camaradas” num trecho sobre “hereditariedade” (algo associado a laços sanguíneos) tem um motivo! Conforme foi aludido anteriormente, a prioridade da Ie é manter firme as bases que a seguram pelo máximo tempo possível, portanto, quando não existiam filhos biológicos para encabeçar a família, era comum a adoção de um moço (o sucessor) e uma moça (a esposa do sucessor) pelo patriarca. Quando havia somente filhas, adotava-se um homem já adulto (Mukoyōshi – 婿養子) para se casar com uma delas, o que é uma prática nas empresas familiares até hoje. Não entrando nos méritos éticos e morais, uso esses costumes na intenção de exemplificar simbolicamente a “aceitação” e como a entrada de pessoas sem o tal laço sanguíneo no círculo familiar permeia os solos do Japão há algum tempo. Exemplos menos controversos são encontrados no folclore japonês — Momotarō, Kintarō e O Conto do Cortador de Bambu (ou Princesa Kaguya) possuem personagens principais criados por pais adotivos, dependendo da versão. Dito isso…

…uma das memórias mais icônicas que tenho de Demon Slayer é justamente o momento da imagem acima, em que o mestre Urokodaki ajeita as roupas do Tanjiro num gesto bastante paternal. Ele (o mestre e, lembrando: sem nenhum parentesco com o garoto) demonstra equivalente afeto em diversas outras situações pelo protagonista e pela Nezuko, uma Oni.
Usado pelo Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial para definir os inimigos, Oni é um termo metaforicamente associado às ideias de marginalização, exclusão e do “estrangeiro”. Dentre as mais famosas amostras dessa interpretação está a lenda do Shuten-dōji: um Oni que vinha de longe afrontar o imperador e seus guerreiros, porém que frequentemente era simpático e, dependendo do ponto de vista, mal-compreendido por ser diferente. Ou seja, é bem apta a escolha em termos narrativos de tornar a Nezuko um desses seres, sendo que eles carregam consigo tanta bagagem significativa e, num mundo em que os monstros são vilanizados e caçados, utilizar dela para humanizar esses “forasteiros” e reiterar que “família saudável” é uma em que os membros ficam contentes em depender uns dos outros, independente da existência de consanguinidade (literalmente, já que ela agora tem sangue de Oni), também ajuda a caracterizar a bondade do Tanjiro.
Quem convive de forma similarmente sadia é a dupla Tamayo e Yushiro; dois Oni que eu não posso deixar de citar! Eles representam com clareza o conceito de “humanização”, falando nele. A Nezuko estar sob o efeito da hipnose que faz ela ver todos os humanos como sua família e isso funcionar quando ela olha para os dois, dá aquela… “explicitada na bagaça”, como dizem os estudiosos. Tirando a Nezuko da equação, os Oni, até a introdução desses, eram exclusivamente a força destrutiva que separava as famílias alheias, exceto pelo eventual flashback de quando eles eram humanos.
“Oni” e “Família”

Na reta final da primeira temporada do anime, somos propriamente apresentados à Kanao, e a história de vida dela insere algo novo na mesa: a “demonização” dos humanos, visto que os pais da garota não só a maltratavam, como venderam ela à escravidão. É importante isso ter sido colocado em pauta, pois exaltar a humanidade como espécie vai contra a “aceitação” que a série parece acreditar, afinal “existir humanos piores do que demônios” é natural dentro dessa lógica. O estado da Kanao só melhora quando ela é adotada pelas irmãs Kochō.
No pique de “ir contra”, pois então — o arco do Monte Natagumo mostra a antítese do ideal familiar de Tanjiro e Nezuko. Os personagens se referem à dinâmica da Família das Aranhas como “família de faz-de-conta”, “laço de mentira”… essas definições já dizem bastante, mas elucidando: Rui, o Oni que criou a família a partir de outros Oni que temiam os caçadores de demônios (sabemos que uma temia; suponho que seja o mesmo para o resto), manteve os “parentes” puramente com a disseminação do terror; do medo. Se alguém tentasse fugir ou não cumprisse com os papéis designados como mãe, pai, irmã… era reprimido com violência e/ou execução. A ironia da filosofia do Rui-bens Barrichello, é que, na concepção, ele associava a “família” a ser “humano” (coisa que ele não se lembrava de ser), chegando a conclusão de que os mais velhos tinham que dar a vida pelos mais novos; por isso ele não admitia a possibilidade de um humano e uma Oni serem irmãos de diferentes idades e codependentes (no bom sentido), enquanto ele foi rejeitado pelos pais por ser o que era. Não só pela animação premiada, mas também tematicamente: é um arco legal.
Finalmente, Muzan Kibutsuji — o Oni primordial, “Pillar Men”² japonês, “lobo em pele de cordeiro” ou “Devil in Disguise”³, fazendo referência ao Rei do Rock e não ao Rei do Pop, com quem ele parece. Foi pensando nesse cara que me inspirei a fazer o texto duvidoso que você lê, mas não romanticamente, até porque esse sentimento é inexistente nas relações que ele mantém. “Como seria o vilão de uma história sobre família?” — “Egocêntrico” é a resposta de Demon Slayer. Simples o suficiente, mas o interessante está na maneira como se aplica na história. Muzan, claro, exibe indiferença a tudo e todos que não dizem respeito a ele próprio; o curioso é que, por conta disso, todos os vínculos dele são superficiais: com os Oni e com os humanos. O primeiro se resume, tal qual To Love-Rui, à propagação do medo como meio de controle; no segundo, ele é um parasita cujas interações são manipulativas a fim de mesclar na sociedade, usando todas as pessoas, inclusive a família que ele constituiu, como refém para garantir a segurança pessoal. Um paralelo relevante que pode ser traçado é entre os chefes de suas respectivas facções; ele e Kagaya Ubuyashiki: Muzan literalmente usa do próprio sangue para proliferar a sua espécie, mas quem chama os súditos de “minhas crianças” é o líder Esquadrão de Caçadores de Demônios. Se o arco do Monte Natagumo serve como antítese ao Tanjiro e à Nezuko, ele encapsula a antítese do conceito de família da história.
“Família”

Se Demon Slayer tivesse uma lápide, nela estaria escrito: “A família não é o que está ao seu lado, mas a que está ao seu lado”, com esses exatos itálicos e negritos. “Humano ou Oni; consanguíneo ou não… família é dependência saudável que um naturalmente tem com o outro, quaisquer que sejam os envolvidos”. A mensagem em si não é nova ou super profunda, e nem precisa ser. Manter a temática simples, concisa e coerente dentro da proposta é uma virtude possuída pela série, creio eu; e, ainda que que essa não tenha sido a razão do meu interesse inicial (foi a de alguém?), com certeza será um dos principais fatores que me farão lembrar dela, até por não ter outras obras do mesmo alcance demográfico que me venham à mente com o mesmo tema. Talvez Fullmetal Alchemist…? Hm…
Você lembra de alguma? Comente aí! Se ninguém comentar, eu mesmo o farei, e será o cataclisma do fracasso.
Agora, dito tudo isso, vale a pena assistir/ler? Se você não conhece, vale dar uma chance. Foquei em um aspecto específico da obra; acho que ela tem outros méritos e falhas perceptíveis, mas o balanço final é positivo.
Mas tem no Crunchyroll.
Glossário:
1 – Oni: Oni (鬼) são criaturas da mitologia japonesa. O termo Oni é equivalente ao termo “demônio” ou “ogro“, porque tais podem descrever uma variedade grande das entidades. Onis são criaturas populares da literatura, arte e teatro japonês. (Fonte: Wikipedia)
2 – Pillar Men: Referência aos inimigos da Parte 2 de Jojo’s Bizarre Adventure,: Battle Tendency — Tá aí um bom exemplo de como essa área do glossário é seletiva e não faz sentido. Eu poderia ter colocado aqui o que era um Cubone também, mas não… E além de tudo, é bem prepotente; assume que eu estou apto a ensinar algo, o que certamente não é verdade.
3 – Devil in Disguise: Referência à música de Elvis Presley (You’re the) Devil in Disguise lançada em 1963.
Referências:
“Adult adoptions: Keeping Japan’s family firms alive” por Mariko Oi (BBC News)
Trechos de “Japanese Demon Lore: Oni from Ancient Times to the Present” por Noriko T. Reider
Trechos de “Work and Family in Japanese Society” Por Junya Tsutsui
Para quem quiser ler os contos folclóricos japoneses em português (Fonte: Caçadores de Lendas/Japão):
O Conto do Cortador de Bambu (ou Princesa Kaguya) — Também tem a adaptação feita pelo estúdio Ghibli na Netflix
Nota de revisão:
O [citation needed] do primeiro parágrafo está lá de propósito, ou faltou algo pra editar posteriormente?
Em “A família não é o que está ao seu lado, mas quem está ao seu lado”, eu trocaria para “A família não é A que está ao seu lado”, mas não sei se perde o sentido do que você quis dizer, então preferi deixar como está.
No mais, excelente texto! Não tive trabalho algum com ele, você escreve muito bem!
Revisão: Deise Bueno
Demon Slayer e a Família publicado primeiro em https://www.genkidama.com.br
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