Japanófilo – o que é isso, gente?

Japanófilo: quem é, onde vive, como se alimenta…

 

Japanófilo, pela definição do dicionário, é alguém que admira e gosta do Japão. Diferente do otaku(*), que é mais focado em animes e mangás, a apreciação do japanófilo é mais abrangente. Embora possa ter preferência por um ou outro aspecto (cultura, idioma, etc), ele se interessa por tudo relacionado ao país.

 

O termo japanofilia provavelmente surgiu entre o final do século XVIII e começo do século XIX. Foi nesse período que o Japão começou a se abrir para o ocidente. O naturalista Carl Peter Thunberg e o médico Philipp Franz Balthasar von Siebold foram os primeiros a despertar fascínio da Europa pelo país. Eles trouxeram as primeiras informações confiáveis sobre o Japão. Eram observações feitas com um olhar científico, e amostras palpáveis: espécimes de plantas e animais, utensílios, mapas.

coleção

O início: curiosidade

 

Thunberg esteve no país entre 1775 e 1776. Publicou dois livros sobre a flora e fauna local e apesar da desconfiança inicial, estabeleceu uma produtiva colaboração com os japoneses. Por causa dessa troca de conhecimento, as primeiras fagulhas de curiosidade entre europeus e japoneses brilharam. 

 

Siebold chegou ao Japão em 1823 e lá permaneceu por vários anos, até ser banido por um incidente político. Fundou uma escola de medicina em Nagasaki e teve um relacionamento estável com uma japonesa, Taki Kusumoto. O casal teve uma filha, Ine, que se tornaria médica da Imperatriz. Aliás, a filha de Siebold teve uma vida interessantíssima, que merece um texto à parte.

 

Siebold escreveu um livro intitulado Nippon, que era um trabalho ricamente ilustrado de etnografia e geografia. Por sua experiência longa, e bastante íntima com o país, ele se tornou um “especialista em Japão”. Foi consultado pelo governo russo e pelo Comodoro Perry(**) sobre como abordar os japoneses em negociações/questões diplomáticas. Entretanto, não é considerado um japanófilo “oficial”.

Thunberg e Siebold
À esquerda, Carl Peter Thunberg e à direita, Philipp Franz Balthasar von Siebold

O primeiro japanófilo

 

A primeira pessoa a ser oficialmente classificada como japanófilo foi Lafcadio Hearn.

 

Jornalista e escritor, Hearn veio ao Japão em 1890. Tornou-se professor e casou-se com Setsu Koizumi. Ele era um jovem que não tinha sido muito feliz até aquele momento. Na infância e adolescência, foi abandonado primeiro pela mãe, depois pelo pai, e por fim pelos parentes. Não era de se admirar, então, que buscasse um lar. Curiosamente, acreditou encontrar o seu lugar num país totalmente diferente de tudo o que conhecia. O encantamento foi tão grande que, em 1896, ele naturalizou-se japonês e até mudou o nome para Yakumo Koizumi

 

Lafcadio Hearn ou Yakumo Koizumi conseguiu então a estabilidade econômica que nunca havia tido antes na vida. Trabalhando como professor, passou de escolas do nível fundamental para as prestigiadas Universidades Imperial de Tóquio e, posteriormente, Waseda. Escreveu vários livros sobre o Japão. O mais famoso deles foi Kwaidan: Contos do Sobrenatural. O livro contém várias histórias curtas do folclore japonês e um estudo sobre superstições envolvendo insetos. Algumas histórias do Kwaidan são bem conhecidas dos otakus, pois personagens como Yuki-Onna e Rokurokubi aparecem frequentemente em animes. 

 

Foi feita uma adaptação de alguns contos do livro para o cinema em 1964. O filme foi intitulado Kwaidan – As Quatro Faces da Morte, e ganhou o prêmio especial do júri em Cannes.

Lafcadio Hearn
À esquerda, Lafcadio Hearn vestindo um quimono. À direita, acompanhado da esposa e de um dos filhos.

 

Infelizmente, o amor de Lafcadio Hearn pelo Japão foi se deteriorando com o passar dos anos. À medida que o país mudava e se ocidentalizava, foi perdendo o encanto para o japanófilo. As antigas tradições, as lendas e cerimônias milenares que ele tanto amava estavam desaparecendo. Desgostoso, Hearn quis voltar aos Estados Unidos, entretanto acabou falecendo antes, de um problema no coração.

 

O japanófilo hoje

 

A não ser que você seja muito exigente, dá para ser um japanófilo sem tanto esforço atualmente. Não é preciso enfrentar longas viagens de navio nem aprender japonês “na marra”. Uma conexão de internet e algum dinheiro são suficientes. Em serviços de streaming e no Youtube pode-se assistir programas e noticiários do Japão. Existem cursos online de japonês. Lojas vendendo utensílios, roupas e quinquilharias. E se você for de São Paulo, ou puder ir a São Paulo, a facilidade é maior ainda. O bairro da Liberdade oferece praticamente tudo o que um japanófilo procura.

 

(Isto, depois que estivermos totalmente livres do perigo da pandemia, claro…)

 

E então, o que você acha? Quer ser um japanófilo? Ou já é um?

 

(*) “otaku” no sentido que nós, brasileiros costumamos usar.

(**) Comodoro Matthew C Perry, militar estadunidense que teve importante papel na abertura do Japão ao ocidente.

 

Fontes:

Carl Peter Thunberg

Philipp Franz Balthasar von Siebold

Lafcadio Hearn: biografia resumida / vida e obra / Kwaidan

 

Imagem de capa de Wikimedia Commons

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Published by Sarah Fernandes

Quebrando os paradigmas da sociedade. Trabalho com TI e amo tudo relacionado a tecnologia e anime. Também sou blogger nas horas vagas e adoro compartilhar o que aprendo nas redes.

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