O que Onimusha 3, Curtindo a Vida Adoidado e Godzilla têm em comum?
Vocês devem estar se perguntando: “mas Vilson, por que falar DESSE Godzilla?”.
De fato, existem diversos filmes do monstrão que eu poderia trazer aqui pro #TokuTudo, principalmente considerando que é um texto de estreia sobre o tópico Kaijus. Mesmo entre as adaptações americanas, tivemos os excelentes filmes da Legendary Pictures, mas justamente por ter uma seleção TÃO BOA que me vi inclinado a falar justamente desse. Sair um pouco do mainstream e dar um pouco de amor a essa leitura do Godzilla, TÃO INJUSTIÇADA!
De quem foi essa ideia?
Acredito que uma boa parte de quem ler esse texto deve se lembrar desse filme, mas igualmente deve ter uma galera mais novinha que, se bobear, nem sabia da existência dele (desculpe por trazer isso de volta à tona xD). Sendo assim, vamos todos ficar na mesma página!

O grande responsável por esse filme foi o diretor e roteirista Roland Emmerich, famoso por ter como sua marca registrada o gosto por “filmes de desastres”. Em seu histórico, estão filmes que deixam bem claro esse gostoso pessoal, como Independence Day, 2012 e Um Dia Depois de Amanhã. Algo em comum que podemos perceber, tanto em Godzilla quanto em outros títulos, que ele trabalhou e que o leva a receber muitas criticas, é o habito de abordar temas sérios e colocar certa dose de humor um tanto… Indevido. No próprio Godzilla, uma piada recorrente é que os personagens não conseguem dizer o sobrenome do protagonista. Em outros contextos, poderia até mesmo ser algo engraçado, ou se só usado uma vez na narrativa, mas o filme termina sem ninguém sequer conseguir dizer Tatopoulos corretamente.

Falando nele, podemos citar que o elenco do filme conta com dois grandes nomes: Matthew Broderick e Jean Reno. Matthew interpreta o protagonista do filme Dr. Niko Tatopoulos, um cientista que trabalha para a Comissão Reguladora Nuclear e estava em Chernobyl fazendo análises e experimentos em minhocas geneticamente modificadas graças à alta concentração de radiação. Até que o governo dos EUA contrata os serviços desse cientista quando a ameaça ainda não identificada de Godzilla veio à tona. Todos devem conhecê-lo, principalmente por ter feito um dos filmes adolescentes mais icônicos de todos os tempos: Curtindo a Vida Adoidado (Farris Buller’s Day Off no original – 1986). E seja você da geração atual ou não, já deve ter visto a lendária cena de Ferris cantando Beattles em meio a um desfile no centro de Nova York. Até mesmo o filme de Deadpool (2016) já fez paródia dos créditos finais com Farris pedindo para as pessoas irem embora.

Jean Reno tem uma lista incrível de filmes e eu poderia citar dezenas deles para vocês associarem o trabalho desse monstro de Hollywood, mas se tem algo que é sempre bom mencionar sobre ele é o seu trabalho nos games! Isso mesmo! Jean Reno serviu de modelo para o protagonista de Onimusha 3 Demon Siege (Capcom – 2004) tanto na dublagem quanto em todo o resto. Em Godzilla, ele interpreta o francês Philippe Roaché, um agente do serviço secreto francês badass, cuja missão é cobrir os rastros que liguem Godzilla ao seu país, pois tudo indica que ele é originário da Polinésia Francesa, local onde frequentemente eram feitos poderosos testes nucleares que podem ter contribuído para o surgimento do lagartão.
Dessa vez, não é um Suit Actor interpretando Godzilla. O design do verdadeiro protagonista desse filme foi ideia de Patrick Tatopoulos. Sim, o mesmo nome do personagem de Matthew. Ao que parece, os produtores decidiram homenageá-lo dessa forma, e foi uma atitude bem legal. Esse, claro, não foi o primeiro e nem o último trabalho de Patrick, seus designs podem ser vistos em inúmeros outros filmes famosos, como Batman vs Superman e a sequência Liga da Justiça, Duro de Matar 4.0, Eu Robô, Eu Sou a Lenda e também esteve presente ao lado de Emmerich em Independence Day.

Godzilla estava morto antes mesmo do filme começar
Vocês devem ter notado que não me preocupei muito em dar uma sinopse do filme antes de desenvolver o assunto, pois… Sinceramente, não precisa. Antes de tudo, é um filme do Godzilla, então ele tem o plot de um filme de Godzilla. Um acidente nuclear acontece, o bicho surge, ataca a cidade, pessoas correm de pânico e tentam lidar com a ameaça. É isso. Infelizmente, isso é uma das pouquíssimas coisas que “restaram” do conceito original de Godzilla para esse filme.
O intuito é ser um tipo de reboot, trazendo um novo ar para o tão conceituado Kaiju em terras ocidentais. Nas palavras do próprio diretor, ele achava o design clássico do Godzilla da Toho muito não realista, graças a isso tivemos o design “polêmico” de Tatopoulos. Agora Godzilla tinha um visual parecido com o de uma iguana, da cabeça larga até a ponta da cauda, paralela ao chão, semelhante a alguns dinossauros bípedes, seu corpo era um tanto atlético, com pernas e braços quase humanos. Segundo o designer, ele buscou algo que fizesse Godzilla ser rápido, o que com certeza é bem representado no filme, já que uma criatura de quase 100 metros de altura e 20 mil toneladas consegue despistar helicópteros militares no meio da floresta de pedra nova-Iorquina.
É quase hilário como o Japão é completamente excluído da equação nesse filme, não que eles tivessem qualquer obrigação de incluir algo, mas é até irônico, de certa forma. Creio que é de conhecimento geral que a figura do Godzilla é uma metáfora ao medo que as pessoas sentiam da ameaça nuclear, o que é perfeitamente compreensível, sendo que estamos falando do país que foi bombardeado duas vezes. A única real participação japonesa no filme é nas cenas iniciais, quando o Godzilla ataca um barco pesqueiro e logo em seguida a cena do senhor japonês sobrevivente ao ataque falando para o Phillipe, “Gojira”. E termina aí a “representatividade” do Japão no filme. É um pouco estranho essa escolha, pois foram os EUA os responsáveis pelos ataques com bombas atômicas ao Japão, faz parecer que eles estão se exonerando do fato, sabe? Pelo menos é a impressão que eu tenho. Tanto que, na história, a responsabilidade da existência do Godzilla cai sobre… Os franceses?! Tudo isso já se torna um ponto bem negativo para o longa.
Fora esses “deslizes históricos”, o filme ainda trouxe muito desconforto aos fãs da época ao descaracterizar o Godzilla como conhecíamos. Não só pela mudança do design, que na minha humilde opinião não tem problema nenhum, mas por retirar uma das coisas mais sagradas quando se trata dele: O Atomic Breath.

Um filme do Godzilla sem o Atomic Breath é, no mínimo, OFENSIVO! “Fanboysismo” à parte, simplesmente não faz sentido. Durante o filme até aparece algo semelhante ao A.B, mas até hoje se questiona se foi ou não a versão deles do A.B., mas sinceramente, mesmo que fosse, seria algo patético. O primeiro ocorre durante a sequência de perseguição de helicópteros, o primeiro grande embate do exercito contra ele e fica bem ambíguo se foi só uma explosão ou se foi algo vindo dele, o segundo momento é mais pro final do filme, no qual ele claramente dá um poderoso rugido, mas são só carros explodindo ao colidirem uns com os outros ao saírem voando pela força do vento que foi gerada. Posteriormente, esse erro é concertado na série animada que deu sequência ao filme, mas falaremos dela mais tarde.
Seja bom, seja ruim, humanos em filme de Kaiju é sempre um erro!
Apesar de termos nomes importantes no elenco de atores, isso não ajuda nem um pouco a fazer com que os personagens humanos sejam interessantes. Além de Nick e Philippe, somos apresentados à determinada e sonhadora repórter Audrey Timmons (interpretada por Maria Pitillo) e o camera-man Victor “Animal” Palotti (Hank Azaria). Audrey sonha em alavancar sua carreira no canal de notícias em que trabalha, deixando de ser apenas a assistente do âncora chefe Charles Caiman (Harry Shearer) e a oportunidade bate na porta quando ela vê por acaso na TV, enquanto reclamava da vida para os amigos, o ex-namorado Nick Tatopoulos e nas palavras da amiga e esposa de Victor, Lucy Palotti (Arabella Field), “não é todo dia que você tem um ex envolvido na maior notícia de todos os tempos!”. Isso é todo o drama interpessoal dos personagens que vamos ter. Audrey tentando virar uma repórter, Nick e ela se envolvendo novamente, Victor fazendo seu trabalho tentando conseguir as melhores imagens do Godzilla, que gera uma das melhores cenas do filme, a “pisada”, e claro… Sobreviver ao ataque de um Kaiju.

Não é surpresa para ninguém que americanos gostam de colocar militares em tudo, principalmente quando se trata de adaptar algo vindo do Japão (vide CDZ Netflix e o filme do Sonic). Sendo assim, em Godzilla não seria diferente e faz até sentido ter militares envolvidos no combate a um monstro gigante atacando uma cidade, mesmo nos filmes originais japoneses isso ocorre. Mas o americano não resiste em dar aquela boa dose de heroísmo e destaque em excesso ao mostrar os esforços dos militares, mas que no final preferem resolver tudo com tiro, porrada e bomba e muitos, muitos helicópteros. Narrativamente, eles não acrescentam em nada ao filme. Temos também a figura do político que está mais preocupado com sua candidatura e interesses mesquinhos do que com a gravidade da situação (que coincidência para o que estamos passando atualmente, não?).
O filme consegue descer ainda mais um degrau de qualidade quando, após uma aparente vitória do exercito contra Godzilla, a história se foca em achar o ninho que ele estava criando. Nick descobre que o monstro não estava atacando aleatoriamente a “cidade que nunca dorme”. Como uma nova espécie surgindo no planeta, estava seguindo seu instinto de procriar e NY parecia ser o local perfeito. Uma ilha onde podia se esconder, conseguir alimento e colocar seus ovos. É exatamente isso que acontece e é no famoso estádio do Madson Square Garden que o mamãe Godzilla decide depositar os ovos com os bebês Godzilla. De repente, o filme vira um… Jurrasic Park piorado e misturado com algo meio “run from zombies”. Os efeitos em CG usados até o momento ficam um pouco de lado para dar espaço aos efeitos práticos com bonecos e animatrônicos sendo usados para interpretar os filhotes do Kaiju. Um dos pontos mais baixos do filme se estende por tempo demais e força piadinhas sem graça.

Eu sempre fui da opinião que filme de Kaiju em geral tem ZERO necessidade de presença humana ou protagonismo dos mesmos. Quem em sã consciência pega um filme desses para ver GENTE? Nessa adaptação não é diferente e nem se tem um esforço em momento nenhum para melhorar.
O que se aproveita?
Em todos os sentidos, esse filme foi um fiasco, tanto na crítica quanto nas bilheterias. Segundo o Diário de Wall Street, para um filme ser considerado um sucesso ele precisa arrecadar algo em torno de 240 milhões de dólares. A produção do longa custou algo em torno de 130 a 150 milhões de dólares e o retorno que tiveram foi por volta de 380 milhões. Pouco mais da metade do investimento e “apenas” 100 milhões acima da estimativa média. Em termos de comparação, no mesmo ano tivemos a estreia de Armageddon e ele gerou mais de 550 milhões de dólares e teve um custo de produção de 140 milhões. Isso ainda sendo considerado um filme mediano pela crítica. Esses números mostram que Godzilla conseguiu alcançar um considerável sucesso financeiro, chamou a atenção, mas gerar pouco mais da metade do orçamento original não é algo muito bom nessa indústria.
Agora, apesar de tudo isso, o filme ainda apresenta muitas coisas legais. Antes de tudo, é um filme de Kaiju até que competente (tirando a parte dos babys Godzillas), ele chega de forma extravagante na cidade causando caos e destruição como todo bom filme dele tem que ser. As sequências de ação são bem dirigidas e visualmente impactantes. Não tem como você não arregalar os olhos e subir um arrepio quando vemos o Godzilla atravessar um prédio como se ele fosse de papel, ou na sequência final quando ele persegue os nossos heróis pela cidade até ser abatido por mísseis. Eu mesmo até me emociono, pois a cena chega a ser um tanto cruel e impactante, é como ver um animal indefeso sendo maltratado (fora o fato de que em filme de Kaiju eu SEMPRE torço pelo Kaiju).


Sempre houve uma promessa de uma sequência ao longa-metragem, que nunca viu a luz do dia, mas tivemos uma série animada! Muito originalmente chamada de Godzilla – The Series, foi ao ar em setembro de 98 e contou com 40 episódios divididos em duas temporadas. Ela se passa logo após os eventos do filme, quando Nick encontra um único ovo sobrevivente e dele sai um bebê Godzilla, muito carinhosamente chamado de “Zilla”, e como a primeira coisa que o monstrinho viu foi Nick, considera que ele é sua “mãe” e os dois passam a ter uma relação de dono e pet. O restante da série tenta resgatar um pouco da origem do Godzilla, colocando-o para brigar a cada episódio contra um novo Kaiju ao melhor estilo Pokémon e até ganhou de volta o Atomic Breath! A animação chegou a passar aqui no Brasil, mas de forma quase obscura e com isso não conseguindo se manter e nem ser reprisada tantas vezes. Como consequência, é praticamente impossível achar online para baixar e eu procurei bastante antes de escrever essa matéria, para poder falar com mais propriedade do que só com a minha memória nostálgica como referência de experiência. Zilla também se fez presente no universo expandido das HQs do Godzilla: Rulers of the Earth, na qual temos algo como um Godzillaverse acontecendo.
No final das contas, vocês devem estar se perguntando: “mas Vilson, você recomenda esse filme?”.
A minha resposta é: sim, recomendo. Pode não ser um filme que vá agradar todo mundo, mas se você for um fã de Kaiju ou até mesmo queira um ponto de start para conhecer mais do universo do Godzilla, pode ser um uma boa experiência e, depois disso, procurar coisas com mais qualidade! Como estamos em clima de quarentena, pode ser um bom pipocão para passar o tempo e, vejam só, o filme está atualmente disponível na Netflix! Quem quiser revisitar esse filme ou quem ficou curioso para conhecer, só clicar AQUI.

Esse foi mais um #TokuTudo para vocês, galera! Espero que tenham gostado do review mais inusitado até agora nessa coluna! XD Deixem aqui nos comentários o que acharam, suas opiniões sobre o Zilla e até mesmo sugestões para outras matérias! Quero ver os fãs de Kaiju todos online!
Até a próxima, amigos! Fiquem em casa e lavem as mãos!
Revisão: Karin Cavalcante
Vamos falar DAQUELE filme do Godzilla publicado primeiro em https://www.genkidama.com.br
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