“Eu vivo e respiro mangá” Rumiko Takahashi
Esse conteúdo não é original do Portal, é uma tradução. Trata-se de uma entrevista de Rumiko Takahashi para o jornal Le Figaro.
A rainha do mangá, grande prêmio do Festival de Angoulême em 2019, abriu as portas para seu mundo em Tóquio. Encontro com uma autora especial, que marcou várias gerações.

Rumiko Takahashi: seu nome ressoa com deferência entre todos os fãs da arte japonesa. Não foi realmente uma surpresa vê-la consagrada no Grande Prêmio de Angoulême de 2019. É mais surpreendente, no entanto, ter a oportunidade de entrevistá-la (aqui, graças às edições Glénat, editora na França dos dois títulos emblemáticos Urusei Yatsura e Ranma ½). A rainha dos mangás prefere escrever novas histórias do que contar as suas.
Com um olhar cintilante, Rumiko Takahashi faz quantas perguntas ela dá respostas. Ela tem uma curiosidade insaciável. Entendemos por que sua imaginação parece interminável. Para ela, a vida é uma fonte de inspiração. Muito cedo, ela sabia que iria se tornar uma mangaká. Filha de um médico, a caçula da família, ela aprendeu a desenhar se inspirando nas pinturas á nanquim de seu pai. Aos doze anos, ela comprou seus primeiros lápis e desenhou yon-koma (mangá com quadros, equivalente à história em quadrinhos). Antes de entrar na faculdade, ela já enviou mangás para as revistas Shônen Sunday e Garo (onde Susumu Katumata, da qual ela era fã, fazia parte).
O FIGARO. O que fez você querer se tornar uma mangaká?
Rumiko TAKAHASHI. Quando criança, eu lia muitos mangás. Você poderia dizer que eu estava rodeada por eles. Então isso foi feito muito naturalmente. Não foi uma revelação ou um choque, mas sim uma evidência amadurecida durante minhas leituras.

O FIGARO. Você costuma incluir referências a outros mangás em seu trabalho …
Rumiko TAKAHASHI. Isso é algo que eu fazia com frequência quando era jovem e um pouco menos hoje. De um modo geral, o que me interessa é citar expressões que são reconhecíveis por todos. Passagens que marcaram os leitores. Eu gosto de desafiar o leitor através da cultura geral ligada ao mangá.

O FIGARO. Quais são suas principais influências?
Rumiko TAKAHASHI. Mais do que uma obra, prefiro citar os seguintes autores que são pessoas essenciais no mundo dos mangás: Osamu Tezuka, Fujio Akatsuka e Fujiko Fujio. Essas são as maiores influências que tive.
O FIGARO. Voce tem a consciencia de que também se tornou influente com jovens autores?
Rumiko TAKAHASHI. Não consigo me colocar no mesmo nível que os três autores que citei. Eles são deuses do mundo dos mangás. Estou feliz por estar no mesmo mundo que eles, por poder trabalhar como mangaká.
O FIGARO. Você tem uma reputação de sempre entregar seus trabalhos no prazo. Qual é o seu segredo?
Rumiko TAKAHASHI. Acima de tudo, deve-se notar que o mangá é parte integrante da minha vida. Eu vivo e respiro mangá. Minha vida diária é pontuada por mangás. Esta é a minha principal prioridade. Além disso, adoro desenhar e inventar histórias: da mesma forma, trabalho sem ter a impressão de trabalhar. Sem ter que me forçar de forma alguma. Respeito os prazos, de certa forma, sem fazê-lo de propósito.
O FIGARO. Descreva sua semana típica …
Rumiko TAKAHASHI. Nos primeiros três dias, trabalho sozinha no storyboard. Depois de terminar, ligo para o meu gerente editorial para discuti-lo. Enquanto trabalho à noite, meu gerente editorial chega por volta das 23h e valida o storyboard ou me dá feedback. Então, trabalho até a manhã seguinte e durmo no meio do dia. Depois, há dois dias dedicados à tinta e acabamento. Este é o momento em que meus assistentes vêm ao estudio. Eles geralmente chegam por volta das 20h. E trabalhamos até de madrugada. Eu sou a única trabalhando nos personagens. Eu cuido disso durante o dia, antes da chegada dos assistentes. Eles cuidam das cores sólidas, das decorações e parte da tinta.

O FIGARO. Você basicamente escreve comédias românticas. Você prefere comédia ou romance?
Rumiko TAKAHASHI. Mesmo quando faço histórias sérias, integro noções de amor e romance. Então, se eu realmente tenho que escolher entre amor e comédia, seria amor. Mas ambos parecem essenciais para mim.
O FIGARO. Você é fã de Shinji Mizushima e de “Abu-san” (série de mangás no beisebol), mas também de Mitsuru Adachi. O que você mais gosta nos trabalhos deles?
Rumiko TAKAHASHI. Mizushima-sensei é um dos pioneiros do mangá de beisebol e até mesmo em mangá de esporte. Eu até me pergunto se não descobri o beisebol através do mangá antes de vê-lo na televisão. O que eu gosto no seu trabalho são os personagens que ele desenvolve e a riqueza do universo que ele constrói. No caso de Adachi-sensei, eu realmente gosto da suavidade de seus personagens e do universo que ele cria, tanto do ponto de vista gráfico quanto lógico. Ele também tem um talento incrível para gerenciar tempo e ritmo. Tenho grande estima por esses dois autores.

O FIGARO. Lum deveria aparecer apenas por um capítulo, mas acabou por se tornar a protagonista ao invés de Ataru. Como foi?
Rumiko TAKAHASHI. Na realidade, na história completa, ela deveria aparecer apenas nos cinco primeiros capítulos. Tínhamos imaginado os eixos de cinco capítulos com meu editor. No primeiro, fiz Lum aparecer, no segundo, uma história completamente diferente, mas no terceiro capítulo, tive que envolver Lum para que minha história fosse bem sucedida. Percebi então que funcionava bem, então a guardei para o quarto e quinto capítulos. Naquela época, minha editora me disse que os leitores gostavam dessa personagem e que seria bom mantê-la para o futuro. Ela acabou se tornando a heroína do mangá.

O FIGARO. Criada na década de 1980, a história “Maison Ikkoku” continua importante até hoje. Além da atemporalidade de um romance, por que esse trabalho permanece atemporal?
Rumiko TAKAHASHI. Maison Ikkoku é um trabalho com forte caráter romântico, este título evoca o amor unidirecional, a expectativa que se pode ter enquanto estiver apaixonado, silêncios e decepções ligados ao coração. É nesses aspectos que é universal e atemporal na minha opinião.

O FIGARO. Você criou InuYasha com a idéia de fazer um mangá de ação e aventura. Porque?
Rumiko TAKAHASHI. Na verdade, eu queria fazer um mangá de aventura, com cenas de ação forte. Eu queria que houvesse brigas com sabres. Provavelmente porque meus dois mangás anteriores, Ranma ½ e Urusei yatsura, eram mangás de humor, de comédia. Eu queria experimentar um gênero diferente.

O FIGARO. Não existem apenas dois universos que se reúnem em MAO, mas também duas épocas. Por que essa discrepância?
Rumiko TAKAHASHI. Isso cria uma lacuna que é bastante visível e interessante de ser encenada. Por que voltar cem anos à era Taisho (início do século XX)? Simplesmente porque é um período muito movimentado para o Japão. Grande terremoto, crise econômica, o Japão está se militarizando e caminhando para a Segunda Guerra Mundial… Mas também é um período muito particular para nós, os japoneses. Um período anterior ao período militarista, antes desses dramas, mantém um verdadeiro encanto.
O FIGARO. Por que você agrada várias gerações de leitores?
Rumiko TAKAHASHI. Sempre que começo ou termino uma série, quero encontrar um novo leitor. Não estou necessariamente tentando me conectar com meus leitores das séries anteriores. Com isso, quero dizer que não estou tentando reproduzir uma história que tenha trabalhado com eles apenas para satisfazê-los. É esse requisito de renovação que, penso, atrai novos leitores.
O FIGARO. Você se lembra de um retorno específico de um fã?
Rumiko TAKAHASHI. Quando comecei, tenho uma memória bastante precisa. Em nossa oficina, não tínhamos fotocopiadora. Fui à livraria local para fazer fotocópias. E enquanto eu estava copiando, uma criança viu o que eu estava fazendo ela apontou para mim e disse: “Oh, é Lum”. Isso realmente me tocou…
FIM
Revisão: Karolina Facaia
Entrevista com Rumiko Takahashi publicado primeiro em https://www.genkidama.com.br
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