Satoshi Kon é um diretor conhecido por ter um estilo próprio, que é facilmente reconhecido por características como a utilização de Jump Cuts, criar “filmes dentro de filmes” e abordar os limites entre a realidade e a ilusão. Porém existe outra característica pouco comentada que merece ser destacada, a forma como o diretor que representa o Male Gaze.
Para aqueles que não conhecem esse termo, o Male Gaze é a representação da mulher dentro de uma obra de arte como um ser (ou objeto) a ser desejado pelo espectador masculino. Para tanto, cria-se ao mesmo tempo uma personagem fisicamente atraente e que possa ser desejada. Geralmente é alguém que utiliza o seu corpo como meio de sedução dentro da obra, algo que permita o espectador desejá-la “sem culpa”.
Em Perfect Blue nós podemos observar como o Male Gaze é retratado no roteiro influenciando a carreira e a vida da Mima. Em um primeiro momento, durante o seu período como cantora, ela era idealizada como uma garota pura, alguém que sempre estaria disposta a fazer tudo pelos seus fãs. Enquanto que durante a sua carreira de atriz, ela passa a ser representada como uma mulher adulta, alguém que utiliza o seu corpo como uma ferramenta de sexualização ou sedução dentro dos seus trabalhos, seja fazendo uma cena de estupro ou posando nua.

Toda essa transformação acaba sendo mediada por homens (o diretor da série de TV, o fotógrafo e até o seu próprio agente) que impuseram as suas visões sobre a carreira da Mima e acabaram por influenciar a forma como os seus antigos fãs a observavam. Sendo assim, o filme apresenta não só uma confusão interna em como a Mima se vê, mas também uma confusão em como os homens a observam. Prova da importância disso na trama é que tanto o diretor da série, quanto o fotógrafo, o seu agente e o fã Memania tiveram os seus olhos vazados quando foram mortos.
Esse é um exemplo perfeito de como o Male Gaze é prejudicial para a representação feminina dentro de obras de arte e para as próprias atrizes que as interpretam. Porém também pode haver um olhar positivo dos homens sobre as mulheres, algo que foi mostrado justamente no filme seguinte de Satoshi Kon.

Millennium Actress mostra o diretor Genya Tachibana fazendo uma entrevista com a atriz Chiyoko Fujiwara, na qual os relatos dela mostram como a sua vida se confunde com os seus papéis interpretados e a busca por um amor. Na maior parte do filme o diretor age passivamente escutando as histórias da Chiyoko. Porém durante dois momentos a forma como o telespectador observa a Chiyoko é mediada através do olhar do diretor.
Logo no início do filme o diálogo expositivo que apresenta o documentário é feito pelo Genya, nele podemos observar uma grande admiração do diretor pela atriz. Ele afirma o quanto ela foi importante para a história do estúdio no qual ela trabalhou e para a indústria cinematográfica japonesa no geral. Já da metade para o final do filme o próprio Genya vira um personagem ativo no desenrolar da história da vida de Chiyoko, já que ele trabalhou como assistente de vários filmes em que ela participou e teve a oportunidade de observar várias coisas que aconteceram ao redor da atriz, que antes não faziam parte do seu conhecimento. Esses relatos do diretor acabam por trazer uma profundidade sobre as coisas que aconteceram na vida da sua entrevistada e ressaltam mais uma vez o seu profissionalismo.

Juntando estas duas participações mais ativas dele, podemos dizer que a maneira como os espectadores irão ver a vida da atriz será mediada pela forma como o Genya irá dirigir o documentário. Só que em vez de projetar uma mulher para ser somente desejada, o que o diretor realmente quer é apresentar uma grande atriz e a forma como a sua carreira foi importante.
Esses dois exemplos nos primeiros filmes do Satoshi Kon, de homens representando mulheres nas suas obras, serve não só como alerta, mas também uma resposta sobre como podemos desenvolver e ver personagens femininas em filmes, séries, animes e tudo mais.
Fontes:
Visual Pleasure and Narrative Cinema
Love, Death + Robots: o Male Gaze da Netflix | mimimidias
“Excuse Me,Who Are You?”: Performance, the Gaze, and the Female in the Works of Kon Satoshi.
Revisão: Deise Bueno
O “Male Gaze” em Perfect Blue e Millennium Actress publicado primeiro em https://www.genkidama.com.br
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