Aspirantes a ilustradores e quadrinistas de todas as partes do mundo buscam uma única coisa em sua jornada artística, o One Piece que definirá o seu futuro a partir de então, o estilo próprio.
Vamos tentar tirar a música “We Are” da cabeça e ir direto ao assunto. O mangá possui um importante papel no mundo dos quadrinhos, especialmente para o público mais novo que cresceu lendo mangás japoneses e assistindo anime, mas como isso aconteceu? Recomendo que você pegue o seu Mupy favorito e me acompanhe nessa jornada esclarecedora.
Os quadrinhos ganharam um grande destaque por volta dos anos 30 com a explosão da imigração nos Estados Unidos, os super-heróis que tomavam conta das bancas e prateleiras eram símbolos dos artistas judeus que lutavam por um espaço no país e por inclusão.

As histórias em quadrinhos se tornaram um produto comercial importantíssimo para as suas respectivas editoras, e isso exigia controle de produção. Quando alguém fosse comprar uma revistinha do Superman, a imagem do herói tinha que ser imediatamente reconhecida, o personagem deveria ter uma silhueta clara na mente do leitor, facilitando assim a associação a outros inúmeros produtos licenciados pela editora. Os personagens passaram a ser tratados, acima de tudo, como marcas e por isso se fez necessário criar um padrão!
É claro que a Marvel e a DC tinham seus artistas “carros-chefe”, cujos estilos eram os modelos usados como o ideal para os demais desenhistas e roteiristas da casa, ou seja “desenhe como Kirby ou Jhon Romita e menos como você mesmo”, e isso implicou em muita pouca diversidade de estilos artísticos nas revistas, mesmo com a chegada dos anos 90, e a onda de quadrinistas que vieram com estilos mais dinâmicos (e responsáveis por deslocar diversas colunas vertebrais femininas) também foram rapidamente se transformando nos padrões da época.

Já os gibis nacionais não possuíam um estilo bem definido com o grande público. Os gibis sempre foram vistos como conteúdo infantil, ou nos raros casos, como meras sátiras de jornal. Eles foram sim grandes influentes no underground nacional, mas não estavam no radar popular, por assim dizer.

“Em 2001, a editora JBC e Conrad passaram a publicar séries originais de mangá traduzidas para o português. Nessa mesma época, a qualidade das histórias em quadrinhos americanas da Marvel e DC comics, estava caindo, deixando espaço para a entrada de material novo.”
(SAVITRI, A UTILIZAÇÃO DO MANGÁ NO ÂMBITO DA ILUSTRAÇÃO NA CULTURA JOVEM BRASILEIRA. Brasil Escola, 2013. Disponível em: https://ift.tt/3aqsw6d)
E com a vinda do mangá, os leitores foram impactados com estilos diferenciados e narrativas distintas, de Toriyama à Rumiko Takahashi, os quadrinhos agora não tinham um padrão ou um estilo único, embora compartilhassem algumas características, as artes variavam do estilo realista ao cômico e cartunesco.


As editoras japonesas de mangá, diferentemente das americanas, que se preocupavam em padronizar o visual e a estilização de seus personagens e revistas, abriam oportunidade para estilos diferenciados, apostando que, desta maneira, determinada história ou assinatura chamaria a atenção de públicos distintos, e isso foi reforçado ainda mais com a ajuda das demografias e gêneros específicos para as histórias.
Sem falar em como a indústria de mangás funcionava, assistentes de mangá não eram apenas direcionados a replicar o estilo do seus chefes, como acontecia nos Estados Unidos, mas também eram guiados e incentivados por seus artistas principais, fazendo com que assim criassem um ambiente que se auto alimenta, dando origem a outros inúmeros mangakás que deixavam o posto de assistentes para se transformarem em artistas consagrados.
“Um outro dado importante e positivo com respeito à incorporação do mangá ao repertório visual infanto-juvenil brasileiro é o maior desenvolvimento, crescimento e aprimoramento deste, dada a natureza da narrativa visual do mangá. O contato da criança com os mais variados sistemas visuais permitirá que seu vocabulário visual se desenvolva exponencialmente e lhe oferecerá mais ferramentas para explorar e compreender o mundo à sua volta.”
(Autor desconhecido, O mangá no Brasil, p. 46, PUC-Rio. Disponível em: https://ift.tt/3atmMsc)
Inúmeros estilos começaram a se destacar, e o termo “traço” começou a ganhar popularidade entre os leitores que tinham interesse nas artes de seus mangakás favoritos. E para aqueles que desejavam se tornar artistas, um novo objetivo surgiu: possuir um traço próprio.
O terror dos professores de desenho, e o grilhão de alunos imediatistas, o traço próprio se transformou em uma faca de dois gumes. Enquanto o conhecimento por trás da ideia de estilo próprio enriquecia o meio artístico, dando espaço aos quadrinistas que fugiam do padrão e maior aceitação dos leitores com a nova safra de técnicas e artistas, também foi uma “muleta” usada por alguns que tentavam justificar sua falta de conhecimento em desenho.
Sem falar na ansiedade que alguns colocavam em si mesmos na busca insaciável e não natural de individualidade no desenho, você provavelmente já ouviu alguém se perguntar “como faço para ter um traço próprio?”. Pois é…
As escolas de desenho e cursos de artes foram recheados por pessoas motivadas pelos mangás, alunos que buscavam algo que os diferenciasse dos demais, e isso foi muito importante, trazendo diversos pontos positivos, o interesse para o mundo dos quadrinhos por exemplo, e a nova safra de artistas brasileiros a se aventurarem no gênero do mangá graças ao incentivo de editoras e concursos nacionais.


Com uma enxurrada de artistas com suas próprias assinaturas, a mídia tradicional dos quadrinhos, inclusive a americana, vem apostando em estilos e artistas únicos, e sem dúvida a liberdade que as editoras de mangá no Japão oferecem para seus artistas tem influenciado até os dias de hoje no estudo de jovens quadrinistas que buscam uma assinatura própria.
E por fim, se você está lendo isso e está na busca desesperada pelo seu traço, fique tranquilo, mesmo o mais sábio dos mestres atingiu seu ápice da noite para o dia, e aos poucos vamos tentar ver como a assinatura de alguns mangakás conquistou tantas pessoas.
Revisão: Karin Cavalcante.
Como o mangá influenciou novos métodos e artistas publicado primeiro em https://www.genkidama.com.br
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