Eu Sou Maluluco?

O estúdio Trigger tem um catálogo curioso de animações. Quando penso nele, imagino algo gritando ora às orelhas, ora aos olhos; e no bom sentido! Ou, pelo menos, num sentido que os torna… eles: únicos. Presente nas obras, essa intensidade que reveste histórias sobre amadurecimento e outros temas sensíveis aos personagens (e a esse processo de crescimento), está sempre atrelado ao fato de que o universo fictício criado nunca é normal.

A Luluco é. 

É…? 


Isso é sobre Space Patrol Luluco

Seria mais normal se saísse pelas ruas com a fatia de pão na boca.

Luluco é uma garota de 13 anos que vive em Ogikubo, a única cidade na Terra que é uma Zona de Imigração Espacial onde humanos e alienígenas vivem juntos. Em meio à diversidade de habitantes do lugar, tudo o que ela quer é ser normal. No entanto, o que não constava nos planos de Luluco, é que ela acabasse apontada como membra da Patrulha Espacial pelo chefe Over Justice, um corriqueiro esqueleto de cabeça flamejante, sendo, então, encarregada da defesa de Ogikubo perante criminosos galáticos. Coisas de pré-adolescente. 

A primeira informação dita ou apresentada numa história tem importância crucial, pois é geralmente a partir dela que elementos relevantes são estabelecidos: o tom atmosférico da obra, as motivações dos personagens, a base da temática… Space Patrol Luluco não perde tempo! De cara, nossa protagonista denota um desgosto pela cidade anormal na qual mora, e é justamente por essas bandas que passa o cerne da questão principal abordada no anime: a individualidade.

“Quando todo mundo é super, ninguém será.” As palavras do vilão Síndrome de Os Incríveis (Disney/Pixar, 2004) cabem nesse universo como uma luva, afinal, existe ironia na vontade da Luluco ser normal em um canto onde o normal é o anormal. Na moral? E aproveitando a interrogação pós-expressão-duvidosa-que-rima-com-normal, lanço outra: o que é “normal”? Seria a concepção social de obedecer às normas? Existir de um jeito comum ou usual? Bom, ambos os aspectos do “normal” citados perambulam a animação de alguma forma: a Patrulha Espacial é a entidade que evoca a lei e clama por justiça, tendo em contraponto a Lalaco, mãe da Luluco e pirata também espacial que correlata “anormalidade” à liberdade, se desvencilhando das entranhas normativas; e, por outro lado, em umas duas ocasiões, a Luluco dá a entender que almeja uma vida ordinária pois se cansou das brigas constantes dos pais, as quais culminaram na separação do casal, tratando-as como algo anormal, fora  do cotidiano pacífico idealizado por ela.

Diz ΑΩ Nova para Luluco.

Em tempos de crise e na presença de tantos dicionários desempregados, é melhor deixar o trampo de atribuir definições à palavras pra quem manja de fato e falar a respeito de contradições; essas, tornam personagens intrigantes. Eu mencionei a ironia na lógica da Luluco ali em cima e não foi num tom de crítica ao roteiro e à coerência; pelo contrário! O ponto da jornada da heroína nesse caso é o amadurecimento e, consequentemente, o abraço ao anormal que ela tão intensamente negava. Aliás, os pobres dicionários que me desculpem, mas não são eles que “manjam de fato” para poderem definir o que é “normal” e “anormal”. De acordo com o Inferno Cop, um dos vários personagens de outras animações do Trigger que surgem em Space Patrol Luluco, num momento de sabedoria: “Os outros não têm direito de dizer o que é normal e o que não é. É algo que precisamos decidir por nós mesmos.”

No fim das contas, o “Buraco Negrense”, conforme é chamado o vilão, condiz bastante com essa arbitrariedade de decidir por terceiros. Ele faz jus ao nome; é um colecionador que “suga” pertences dos outros, atribuindo valor até para coisas intangíveis como sentimentos (aqui, materializados na forma de um coração cristalizado, tecnicamente são… tangíveis). Conclui-se na narrativa que o que torna cada um valioso/único é a noção de “ser” de identidade que desenvolvemos convictos dos nossos objetivos e desejos. A Luluco ama o ΑΩ Nova, um ser que a princípio não era dotado de emoções. Independentemente de ser “só mais uma paixonite normal de adolescente”, o sentimento é dela. Só dela.

É um encerramento memorável.

Aliás, eu acho o tema de encerramento bem legal. Pipo Password, por TeddyLoid e Bonjour Suzuki, é agradável de escutar, mas fazendo um esforço a fim de esquecer o áudio por um momento, olhemos na direção das primordiais geradoras do meu deleite: as imagens. Existe um contraste visual interessante entre fundos fotográficos reais e a Luluco, desenhada (em sua forma natural de desenho animado) e destacada do ambiente enquanto corre atrás do seu interesse amoroso, a quem também foi fornecido o mesmo embelezamento L’Oréal¹ de desenho e destaque. A curiosidade está na interpretação padrão que temos de foto. Para nós, é normal, é um retrato da realidade; do lugar comum, porém eu gosto da ideia de que ali a foto é utilizada como método enfático para dar importância ao indivíduo, conduzindo o tópico de que um lugar anormal só é anormal por conta das pessoas únicas que lá vivem. 


Isso é sobre o estúdio Trigger e Space Patrol Luluco

Na imagem: “Luluco, Patrulheira Super-Dimensional Especial. Codinome: Trigger-chan.”

Falando em lugar esquisito em que as pessoas vivem: Ogikubo. Não, não as do Space Patrol Luluco (que tem várias), mas sim a Ogikubo de verdade! Existe uma área residencial em Tóquio com tal nome. Sabe o que está nessa área? A sede do estúdio Trigger. Veja só! Certamente não é uma coincidência. O trabalho minucioso de detetive fajuto tem gerado frutos, então segue aqui mais um achado: quer dizer, na verdade é “segue ali”, visto que eu me refiro à imagem acima, mas enfim! A Luluco resolvida do fim da série aparece com aquele exato visual e codinome; aí também deve haver alguma relação com o estúdio, não?

  Elementar, meu caro Watoson² você me diz. 

Ah, e tem mais! eu respondo.

Agora sim, segue aqui:

Animação comemorativa dos 5 anos do estúdio Trigger, celebrado em 2016, mesmo ano do lançamento de Space Patrol Luluco.

Space Patrol Luluco, além de uma história, é a celebração do próprio Trigger e sua identidade artística, que é mais velha do que a idade sugere, dado que o estúdio carrega consigo parte da bagagem de outro devido à fundação que teve em 2011 a partir da união de ex-membros do estúdio Gainax; incluindo, notoriamente, o diretor do anime em questão Hiroyuki Imaishi, conhecido pelo trabalho em Tengen Toppa Gurren Lagann, Kill la Kill e Promare (esse, inclusive, tem uma coluna sobre aqui no Portal Genkidama). Os dois últimos citados, já sob a bandeira “Trigger”.

“Ele não é assim o tempo todo. Têm vezes em que ele é um pouco mais normal.” — disse o roteirista Kazuki Nakashima sobre o diretor Hiroyuki Imaishi durante uma discussão referente ao desenvolvimento da história de Kill la Kill exibida no “making-of” do mesmo.

No decorrer do texto, nomeei certas produções referenciadas em Space Patrol Luluco como Kill la Kill e Inferno Cop, mas, similarmente: Little Witch Academia, Kiznaiver e Sex&VIOLENCE with MACHSPEED deram as caras por lá; isso sem apontar aquelas muitas outras que foram aludidas indiretamente na série. É admirável que elas não se resumam “apenas” a referências, e sim façam parte da composição desse universo maluluco, quase como se o Trigger dissesse: “nossas obras são assim, a gente é assim, e tá tudo bem ser assim anormal.” O arco de autoaceitação pelo qual passou a criatura ao longo dos 13 episódios, também é o arco do criador. Por isso, a Luluco representa o estúdio

Como aspirante nos confins da área artística, me inspira ver a genuinidade do estúdio Trigger.


Isso é sobre tudo pois é a conclusão

Eu acho que a transformação dela é uma piada com o nome do estúdio. Não tinha pensado nisso até escrever essa legenda. Lamentável.

Na minha visão, a principal virtude de uma obra é quando ela sabe o que ela é. Seguindo a característica do estúdio, Space Patrol Luluco se conhece muito bem e demonstra.

Agora, no pique Palmirinha, se eu fosse dar a receita dessa torta despretensiosa, o primeiro passo seria investir no miolo. Nada muito complicado, você pega os ingredientes que está familiarizado, porém os mais bonitos e frescos e despeja na forma. Revista-os usando uma camada de humor simples e exagerado, e então você mexe pouco; mas bem pouco, para que a consistência não fique muito sofisticada. Leve, então, ao forno por 5 ou 7 minutos, dependendo da sua boa vontade em assistir os encerramentos. Quando o cheiro da honestidade subir, grite enlouquecidamente palavras desconexas em inglês e saiba que sua Space Patorta pode ser servida. Lulucorte os pedaços necessários para atender a demanda. Entretanto, antes de oferecer para as visitas, avise-as que que o miolo é comestível.

Nunca fiz uma torta na vida.

Tirando a lengalenga daquilo ali e preservando só os nutrientes, eu quis dizer que Space Patrol Luluco tem uma história honesta sobre amadurecimento e que, mesmo sendo curtinha, ganha você na simplicidade e na concisão.

Agora, dito tudo isso, vale a pena assistir/ler? Com certeza! Algumas sacadas são dependentes do conhecimento prévio das outras obras do estúdio, mas creio que isso não impacte tanto a experiência. Se ainda não viu, corre lá! É fácil de assistir inteiro numa tacada só.

Tem no Crunchyrol!


 

Glossário:

1Nem ia ter glossário nesse post aqui, mas senti a necessidade de colocar só pra explicar que L’Oréal é uma empresa de produtos de beleza e não o nome de um personagem, caso alguém não tenha entendido. Vai saber, né? Space Patrol Luluco tem um cara chamado Over Justice e outro chamado ΑΩ Nova. Se alguém me dissesse que Over Justice era uma marca de bateria de carro, eu acreditaria.

2Referência à frase clássica do Sherlock Holmes: “Elementar, meu caro Watson”, só que ali é o passaporte falso usado pela Saber, em Fate/Zero. Pô, Elise Watoson?!

 

Referências:

How the Magic Was Created – Little Witch Academia Work Log (original) 

How the Magic Was Created – Little Witch Academia Work Log (inglês)

The Making of Kill la Kill 

Patreon | Studio TRIGGER 

Wikipedia | Studio Trigger 

Revisão: Stella Cristina

Eu Sou Maluluco? publicado primeiro em https://www.genkidama.com.br

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Published by Sarah Fernandes

Quebrando os paradigmas da sociedade. Trabalho com TI e amo tudo relacionado a tecnologia e anime. Também sou blogger nas horas vagas e adoro compartilhar o que aprendo nas redes.

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